Eu tenho uma unha-monstro. Uma coisa assim Slot do "Goonies". Tudo porque prendi o dedão da mão direita na porta do carro, voltando de uma noitada, um pouco já sem reflexo, é verdade. E isso já faz quatro meses. E desde então venho colecionando comentários sobre a coitada, que ainda não cresceu totalmente para substituir a que caiu.
O primeiro deles nem foi exatamente um comentário. Foi mais que isso. O dedo latejava no dia seguinte, estava todo inchado, doendo horrores. Horrores. E eu, trabalhando _na antevéspera do primeiro turno da eleição_, não conseguia ter ânimo para me dirigir à farmácia. E então um amigo, um homem, um gentil, se ofereceu para me acompanhar até a drogaria da Barão de Limeira. Companhia, de quem se preocupa. Fomos, compramos o remédio e subimos. E o dedo parou de doer para todo o sempre.
A unha foi ficando preta, roxa e foi crescendo uma por baixo. Não ficou exatamente agradável de se ver. Mas a vida continua. E num encontro, quase blind date, outro gentil viu o dedo seqüelado e tascou um beijinho, daqueles que também ajudam a curar.
Algum tempo depois mostrei a evolução no meu dedo para um íntimo, ex-gentil. Muito mais íntimo que todos os outros, sua reação foi uma cara de nojo, acompanhada de "eca, não quero ver". Interessante. Reservei.
Ela começou a cair mesmo em dezembro, ficou uma unha meio nova e outra meio velha, roxa, no mesmo dedo. Passei a usar um band-aid para não assustar as crianças. Os comentários acabaram. No dia 31 de dezembro, a unha velha se foi, deixando somente metade de uma unha nova, nascendo torta, defeituosa. Aposentei o band-aid e assumi a imperfeição.
Dias depois já nem lembrava dela. Exceto quando visitei a manicure. Como ela estava pequena, achei melhor não pintar de vermelho, para não chamar mais atenção. Fomos de clarinho. E foi assim que, do nada, sem nenhum estímulo, ouvi de um ainda mais gentil que olhava a minha mão direita: "Então é esse o seu defeito?". Foi o suficiente para eu voltar a pintar a mão toda de vermelho. E a olhar para ela sorrindo.